Correio dos Campos

Covid-19: Enfermeiro do Samu se recupera após 9 dias na UTI e volta ao serviço: ‘Linha de frente da linha de frente’

15 de Maio de 2020 às 09:43
Foto: OGlobo

‘Eu venci’. Essa foi a frase expressa por Max Rodney Cindra Braga, de 43 anos, num pedaço de papel – por ainda ter dificuldades para falar – após deixar o Hospital estadual Zilda Arns no dia 29 de abril. A luta mais difícil vencida pelo enfermeiro emergencista contra a Covid-19 durou nove dias num leito de UTI da unidade de referência em Volta Redonda, onde, à sua volta, ele assistia diariamente ao caos ser instaurado.

Profissional de Saúde do Samu de São João de Meriti, no estado do Rio de Janeiro, e guerreiro na “linha de frente da linha de frente”, como o próprio gosta de frisar, ele, mesmo com dez quilos a menos e ainda desgastado pela doença, decidiu por conta própria insistir em se juntar novamente à sua equipe e voltou à rotina da ambulância nesta segunda-feira.

– Assim que atestei que estava curado, insisti com a minha chefe para voltar a trabalhar e já estou atendendo. Tem muita gente morrendo, muitos colegas estão em baixa, há muitos profissionais da Saúde esquecidos… eu não podia ficar parado – afirmou Max.

“Tem muita gente morrendo, muitos colegas estão em baixa, há muitos profissionais da Saúde esquecidos… eu não podia ficar parado”

O enfermeiro conta como foi ficar internado:

– Eu estive dos dois lados do combate à Covid e foi muito triste tudo que eu vi. No meu leito, eu ficava em frente à sala de ressuscitação e, como é difícil reverter uma parada cardíaca de um paciente com coronavírus, eu via entre 3, 4 pessoas morrendo por noite. Sentia vontade de levantar e ajudar meus colegas, mas não conseguia sequer levantar a cabeça – contou Max.

O enfermeiro começou a sentir os primeiros sintomas da Covid-19 ainda no dia 11 de abril. Afastado do trabalho, a tosse e a falta de ar foram piorando, até que ele precisou ser levado ao hospital.

– Na ambulância a gente trabalha com todos os equipamentos de segurança, mas pode acontecer de qualquer jeito. Eu posso ter pego de um paciente, assim como posso ter pego no mercado, por exemplo. Eu comecei a sentir os sintomas num domingo e fui para casa. Na segunda-feira, fiz um exame que já detectou que eu estava com 30% do meu pulmão comprometido. Como os sintomas não paravam de piorar e verifiquei no meu aparelho que minha saturação estava baixa, comecei a me preocupar e pedi socorro até a UPA de Belford Roxo, município onde moro. De lá, fui transferido para o Zilda Arns no dia seguinte – relatou.

“Como é difícil reverter uma parada cardíaca de um paciente com coronavírus, eu via entre 3, 4 pessoas morrendo por noite”

Max, de 43 anos, não fuma, não é diabético ou hipertenso e pratica luta frequentemente. Ele acredita que isso pode tê-lo ajudado no combate à doença. O profissional de Saúde fala sobre o medo que sentiu enquanto estava internado na UTI com a Covid-19.

– Foi terrível. Eu quase fui intubado por diversas vezes. Gerava em mim um pânico muita grande, um medo… por ser profissional de saúde, eu via o monitor de saturação baixando e sabia que podia acabar sendo intubado. Eu sabia que se isso acontecesse eu podia não voltar mais – disse. – Dos 20 leitos à minha volta, somente eu e outro paciente não precisamos ser intubados. Este vírus infelizmente ainda vai causar muito estrago. O cenário é muito preocupante, era um circo dos horrores. Nós temos que reconhecer a excelência desses profissionais de Saúde no Zilda Arns, essas pessoas precisam ser reconhecidas.

Max, ainda no leito do Zilda Arns: celular 'escondido' fez com que o enfermeiro conseguisse se comunicar com a família Foto: Arquivo pessoal
Max, ainda no leito do Zilda Arns: celular ‘escondido’ fez com que o enfermeiro conseguisse se comunicar com a família Foto: Arquivo pessoal

O isolamento também é algo que aflige a maioria das pessoas contaminadas com o novo coronavírus. Com o enfermeiro, não foi diferente. Mas, na UTI, num ambiente onde celulares eram proibidos, ele deu jeitinho de esconder seu aparelho. Por ele, conseguiu dar e receber notícias aos parentes que, preocupados, mandavam mensagens. Pelo celular, ele descobriu, por exemplo, que seu exame para a Covid-19 havia dado positivo, antes mesmo de o médico informá-lo.

– A Covid-19 causa um isolamento social, espiritual, familiar e material. Por sorte, quando fui transferido da UPA para o hospital, acabei esquecendo o celular no meu bolso, e lá ele ficou. Escondido, conseguia dar notícia aos meus parentes e amigos, porque muitas vezes o retorno que eles têm é técnico demais. Minha família também me contou que o meu exame havia dado positivo, quando eu ainda estava sendo tratado – acrescentou.

‘Fiquem em casa, cuidem dos seus idosos, pais, mães’

Por fim, o profissional de Saúde contou como foi o alívio ao deixar o hospital e, após novo teste, descobrir que estava curado. Ele diz que, agora, entre parentes e colegas, virou o “especialista” na doença, por toda dificuldade que passou.

– Quando eu saí do hospital, percebi que era muito querido. Graças a Deus a receptividade foi muito boa, familiares, colegas de trabalho… orientei a todos que não tinha mais a Covid e que não havia o risco de passar a doença para eles mais, e não tive problemas com isso. Agora, é claro, continuo tomando todos os cuidados porque, na China, houve 77 casos de reincidência. Foram poucos, mas existiram – conclui, e faz um apelo.

– Pelo amor de Deus, fiquem em casa, cuidem dos seus idosos, pais, mães… obedeça o que os especialistas falam. Se eles são especialistas, nós não precisamos discutir com eles. As pessoas não estão levando a sério… tanto na Baixada como na capital, tem muita gente andando nas ruas, dando mole… valorizem a vida. E valorizem a enfermagem.

Fonte: O Globo